Portal de Eventos Científicos do PPGMUS-UFBA, 3º CONGRESSO BRASILEIRO DE ICONOGRAFIA MUSICAL

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Iconografia e Exotismo em Il Guarany de Antônio Carlos Gomes

Marcos da Cunha Lopes Virmond, Lenita Waldige Mendes Nogueira, Rosa Maria Tolón

Última alteração: 2015-10-31

Resumo


Antônio Carlos Gomes (1836-1896), compositor brasileiro com maior expressão internacional no século XIX, estudou no Conservatório do Rio de Janeiro e após no Conservatório Real de Milão onde iniciou exitosa carreira como operísta. Suas relações de identidade, sua obra, e particularmente seu papel como compositor ilustrado na formação de uma identidade nacional para o Brasil tem sido alvo de estudos (VOLPE, 2002). Seu maior sucesso foi Il Guarany, estreada no Teatro alla Scala em 19 de março de 1870. Baseada no romance de Jose de Alencar e de temática indigenista, o libreto de Antonio Scalvini, complementado por Carlos D’Ormeville, permitiu trânsito seguro ao compositor para aborda-lo musicalmente dentro da estética de grand-opéra e do exotismo. Provavelmente este aspecto, combinado com a fluência melódica impar de Gomes nesta obra em particular, tenha lhe garantido substancial e duradouro sucesso. O desejado exotismo está centrado nas figuras de Pery e do Il Cacico, dois dos pontos cardinais do pentágono dramático completado por Cecilia, Don Antonio de Mariz seu pai e Gonzales. Ao longo das décadas, diferentes apropriações dessas duas figuras exóticas podem ser identificadas em ilustrações e mesmo fotos. Se as primeiras tem forte conteúdo de percepção autoral, as fotografias atestam um fato mais concreto, porém ainda perceptivo. Através dessas fontes pode-se estabelecer um relação entre a realidade, a transformação da realidade no conceito de “otherness” segundo Said (2007) e a interpretação dessa transformação pelos periódicos da época. A distância entre a realidade factual do índio e sua representação no palco é incomensurável, compreensível e parte integrante da licença da arte operística, particularmente no que se refere à ópera italiana do século XIX. Mesmo considerando essa aceitação do irreal, a análise iconográfica permite discutir a relação entre as três condições antes mencionadas. Conclui-se que, se o primado do exótico era fonte de interesse nas condições da arte operística do século XIX dado o cenário político- social e tecnológico da época, a melhoria das comunicações e de deslocamento rápido ao longo da primeira metade do século XX modificou a percepção do exotismo, o que pode ter contribuído para uma menor aceitação de obras como Il Guarany de Gomes e, por conseguinte, o relativo esquecimento a que foi relegada.

REFERÊNCIAS SAID, E. Orientalismo. São Paulo: Cia da Letras, 2007, 528 p.

VOLPE, M.A. Remaking the Brazilian Myth of National Foundation: Il Guarany. Latin American Music Review, v. 23, n. 2, p. 179-194, 2002.


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