Portal de Eventos Científicos em Música, 8º CONGRESSO BRASILEIRO DE ICONOGRAFIA MUSICAL

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A música silenciosa das imagens: Interpretações e significados nas pinturas murais de Pompeia
Emanuelle Kotsan

Última alteração: 2025-10-30

Resumo


Resumo

A presente comunicação tem por objetivo analisar as representações musicais em cinco afrescos de Pompeia previamente selecionados, a partir de uma abordagem iconográfica, com ênfase nos processos de circulação e hibridização cultural visíveis nessas imagens. Figuras mitológicas como Apolo e as Musas — oriundas da tradição grega —, assim como Ísis, vinculada ao imaginário egípcio, são incorporadas às cenas musicais não apenas como elementos decorativos, mas como portadoras de significados ligados à razão, inspiração, espiritualidade e ordem. Neste sentido, entendo  esta comunicação dialoga com a temática da Iconografia Musical em fluxo, contribuindo para os estudos em iconografia musical ao evidenciar como a arte pompeiana revela a criação e produção de imagens e culturas musicais profundamente marcadas por hibridização e contaminação cultural, reafirmando seu alinhamento com a temática selecionada.

Palavras-chave: Pompeia; iconografia; música romana; mitologia.

Introdução

A cidade de Pompeia, localizada na região da Campânia, no sul da Itália, foi subitamente destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano de 79 d.C. A tragédia resultou no soterramento de grande parte da cidade sob cinzas e material vulcânico, o que garantiu a preservação de uma grande quantidade de elementos artísticos, culturais e da arquitetura, permitindo que, séculos depois, pudéssemos ter uma visão bastante fiel da vida cotidiana romana do século I. As escavações iniciadas em 1748 revelaram não apenas edifícios, utensílios e corpos preservados, mas também uma impressionante quantidade de afrescos que adornavam as paredes de casas, templos e outros espaços sociais.

Entre os diversos temas representados nos afrescos pompeianos, um número significativo refere-se à música, revelando sua presença marcante na vida religiosa e social dos cidadãos de Pompeia. As imagens retratam não apenas instrumentos musicais, mas também músicos, seres míticos e cenas de performance musical que parecem evocar tanto o entretenimento quanto rituais sagrados. Tais representações instigam uma reflexão sobre o papel simbólico, social e cultural da música em Pompeia e, por extensão, na Roma Antiga.

Com base na análise iconográfica preliminar, uma das hipóteses que emerge deste estudo é a de que as representações musicais nos afrescos de Pompeia não apenas ilustram práticas musicais da vida cotidiana, mas também desempenham um papel simbólico ao incorporar figuras mitológicas associadas à música, como Apolo, as Musas, Hermes, e, em alguns casos, divindades de origem egípcia, como Ísis ou Io. A presença desses personagens parece indicar uma intenção ideológica de associar a música a determinados valores e ideais de comportamento. Apolo, por exemplo, “que além de ser o deus da razão, era também invocado antes das guerras, reafirmando a dicotomia que se encontra também na Harmonia” (SOMAVILLA, 2014, p. 6) representado como símbolo da ordem, da medida e da racionalidade, sugerindo que a música poderia ser compreendida naquela sociedade como instrumento de harmonia social e equilíbrio moral. Já as Musas, enquanto figuras da inspiração divina, remetem à valorização do saber, da criatividade e da elevação espiritual por meio da arte. A inclusão de elementos egípcios no repertório visual, como Ísis, aponta para uma possível hibridização iconográfica e religiosa, que reforça o papel da música em contextos rituais e místicos. Assim, os afrescos analisados podem ser compreendidos como espaços de reinterpretação de modelos culturais diversos, nos quais a música adquire significados complexos e que pode ter como objetivo, de alguma forma, orientar comportamentos, reforçar identidades e estabelecer pontes entre diferentes tradições do Mediterrâneo Antigo.

Materiais e Métodos

A metodologia adotada será de natureza qualitativa e interpretativa, centrada na análise iconográfica de cinco imagens selecionadas de afrescos da cidade de Pompeia, as quais são apresentadas a seguir:

Apolo com cítara.

Fonte: POMPEIIINPICTURES

Euterpe, Musa das flautas e da Música

Fonte: POMPEIIINPICTURES

Io representada com chifres, guardada por Argos a quem Hermes mostra sua siringe.

Fonte: POMPEIIINPICTURES

Isis com Anúbis

Fonte: POMPEIIINPICTURES

Isis-Fortuna com chifre da abundância (cornucópia) e um sistro, com um pé sobre um globo.

Fonte: POMPEIIINPICTURES

A investigação baseia-se na abordagem de Erwin Panofsky para análise de obras visuais: o nível pré-iconográfico (descrição formal da imagem), o iconográfico (identificação de temas e motivos) e o iconológico (interpretação do significado simbólico e cultural).

As imagens analisadas foram selecionadas a partir de catálogos arqueológicos dos registros das escavações de Pompeia. O critério principal de seleção foi a presença explícita de instrumentos musicais e/ou cenas de prática musical, considerando sua distribuição espacial nos ambientes da cidade.

Além da análise visual, a presente comunicação faz uso da classificação das pinturas pompeianas segundo August Mau, que as agrupa em quatro estilos cronológicos e estilísticos. Essa classificação permite compreender o contexto artístico e histórico em que as imagens musicais foram produzidas. Também são utilizados os conceitos de memória cultural de Jan Assmann, que entende a cultura como processo de conservação e transmissão de sentidos no tempo, e a teoria da “vida póstuma das imagens” (Nachleben der Antike) de Aby Warburg, que busca compreender como determinadas imagens se perpetuam e se transformam em diferentes contextos históricos.

Embora a pesquisa ainda esteja em fase de desenvolvimento, espera-se que, por meio da análise iconográfica das pinturas murais com temática musical encontradas nos afrescos de Pompeia, seja possível alcançar uma compreensão mais aprofundada sobre o papel da música na cultura da Roma Antiga.

Considerações Finais

A análise das representações musicais nos afrescos de Pompeia permite compreender como a imagem atuava, no contexto romano, como um meio de expressão e preservação de práticas culturais, religiosas e sociais relacionadas à música. As pinturas não apenas retratam momentos de execução musical, mas constroem narrativas visuais carregadas de simbolismo e a presença de referências mitológicas. Tal presença revela um repertório imagético plural, que ultrapassa os limites da tradição greco-romana e incorpora elementos de outras culturas, como a egípcia. Essa composição híbrida de elementos iconográficos aponta para uma intensa dinâmica de criação e produção de imagens, na qual diferentes modelos culturais foram apropriados, reinterpretados e ressignificados no interior do Império Romano. As pinturas tornam-se, assim, testemunhos visuais de processos de transculturação e contágio simbólico, nos quais a música funciona como eixo de articulação entre mitologia, comportamento e identidade cultural.

Nesse sentido, entende-se que os afrescos analisados operam como instrumentos visuais que não apenas refletem a prática musical na Antiguidade, mas também oferecem modelos ideais de conduta e pertencimento.

Referências

  • ASSMANN, Jan. A Mente Cultural: A História como Memória. Petrópolis: Vozes, 2011.
  • MAU, August. History of Decorative Art in Pompeii. Leipzig: 1882.
  • PANOFKSY, Erwin. Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 1999.
  • SOMAVILLA, Abigail. Música e filosofia na Antiguidade. Disponível em: https://revistas.fapas.edu.br/index.php/safilosofia/article/view/248/148
  • WARBURG, Aby. A Sobrevivência dos Antigos: A Ciência da Cultura. São Paulo: Editora da Unicamp, 2013.

Palavras-chave


Pompeia; iconografia; música romana; mitologia

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