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As relações da música e da imagem em "Mater Dolorosa in Memoriam II", de Roberto Evangelista
Karen Cordeiro Lisboa, Luciane Viana Barros Páscoa

Última alteração: 2025-06-01

Resumo


Roberto Evangelista (1946–2019), artista visual e poeta nascido em Cruzeiro do Sul e radicado em Manaus, é considerado o principal expoente da arte conceitual no Amazonas. Seus trabalhos dialogam com linguagens como instalações e performances, em sintonia com a land art, o ready-made e a arte povera. Formado em Filosofia pela UFAM, atuou também no Teatro Universitário, onde aprofundou suas experiências artísticas e performáticas. Reconhecido como mestre da União do Vegetal no estado, sua obra articula dimensões filosóficas e espirituais, evidenciando uma veneração à floresta e à natureza como forças vivas e sagradas, como se vê em Mater Dolorosa in Memoriam II – A criação e sobrevivência das formas.

Criada em 1979, essa obra integra a série Documentos da Amazônia, produzida com apoio da TV Educativa do Amazonas. A obra entrelaça elementos visuais, poéticos e sonoros, compondo um sentido simbólico. Este trabalho propõe analisar tais elementos e as relações que deles emergem.

A obra foi gravada com moradores de uma comunidade às margens do Lago da Arara, no Alto Rio Negro, incluindo membros da família de Bibiano Costa, indígena Tukano (Ye'pâ-masa e Pira-tapuya), amigo do artista. A presença dos Tukano transcende o aspecto imagético e se evidencia também na trilha sonora.

Identificam-se na obra trechos de músicas instrumentais tocadas com flautas tradicionais, como a cariço e a yupari, usadas em rituais dos povos Tukano. Esses instrumentos aparecem em registros históricos e arqueológicos, como na Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira (Areia, Miranda e Hartmann, 1991) em achados recentes citados por Raoni Vale (2012). Este estudo destaca o uso simbólico dessas flautas entre os Ye'pâ-masa, Pira-Tapuya e Dessana, com base em mitos como o roubo das flautas sagradas (Cabalzar, 2003; Lana e Lana, 2019) e a lenda do Jurupari, registrada por Stradelli (2009).

A música em Mater Dolorosa II participa ativamente da construção simbólica da obra. Como observa Piedade (1999), entre os povos amazônicos, ela está enraizada em cosmologias, curas xamânicas e rituais. O sincronismo e o entrelaçamento simbólico da música e da imagem em Mater Dolosa II, exemplifica o conceito de “valor acrescentado”, de Michel Chion (2008), segundo o qual o som confere à imagem um novo sentido. Em Evangelista, porém, a música não apenas acompanha, mas transforma a narrativa visual, revelando a força da audiovisão como campo simbólico.

A inclusão de descendentes de povos originários, tanto nas imagens quanto na trilha sonora, representa uma memória de resistência. Este estudo busca discutir tais aspectos, destacar as particularidades estéticas da obra e situá-la no contexto sociopolítico de sua época, especialmente no retorno do mito na pós-modernidade. Para tanto, usaremos o método iconológico de Erwin Panofsky (2014).

REFERÊNCIAS

 

ARAÚJO, James; GOMES, Verônica; PINTO, Renan Freitas. (orgs.). Ritos: Roberto Evangelista. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas (EDUA), 2017.

 

AREIA, M. L. Rodrigues; MIRANDA, M. A.; HARTMANN, T. Memória da Amazónia: Alexandre Rodrigues Ferreira e a Viagem Philosophica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá 1783-1792 [Catálogo]. Coimbra: Museu e Laboratório Antropológico da Universidade, 1991.

 

CABALZAR, Aloisio. Dahsea Hausirõ Porã ukushe wiophesase merã bueri turi: mitologia sagrada dos Tukano Hausirõ Porã. Narradores. Ñahuri (Miguel Azevedo),  Kumarõ (Antenor Nascimento Azevedo). São José I,  AM:  UNIRT  -  União das Nações Indígenas do Rio Tiquié :  São Gabriel da Cachoeira, AM :  FOIRN,  2003.

CHION, Michel. A Audiovisão. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011.

FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem Filosófica ao Rio Negro. 2ª. ed. SANTOS, Francisco Jorge dos (org.). Manaus, Editora da Universidade Federal do Amazonas e Editora do Instituto Nacional de Pesquisas, 2007.

LANA, Firmiano Arantes (Umusĩ Pãrõkumu); LANA, Luiz Gomes (Tõrãmũ Kẽhíri). Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kẽhíripõrã. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Dante, 2019.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Tradução: Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2017.

PIEDADE, Acácio Tadeu de C. Flautas e trompetes sagrados do noroeste amazônico: sobre gênero e música do Jurupari. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 5, n. 11, p. 93-118, out. 1999.

STRADELLI, Ermanno. A lenda de Jurupari. In.: Lendas e notas de viagem: a Amazônia de Ermanno Stradelli. Tradução: Aurora Fornoni Bernardini. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

VALLE, Raoni. Arqueologia rupestre no baixo Rio Negro: diálogo com as perspectivas indígenas do Alto Negro – Amazônia ocidental brasileira. In: ANDRELLO, Geraldo (org.). Rotas de criação e transformação: narrativas de origem dos povos indígenas do Rio Negro. São Paulo: Instituto Socioambiental; São Gabriel da Cachoeira, Am: FIOIRN, 2012.


Palavras-chave


Roberto Evangelista; Mater Dolorosa in Memoriam II; Música.